A censura a “A Serbian Film” é imoral

Publicado: 15/08/2011 em Uncategorized

Por Ricardo Calil

Você gostaria de viver em um país onde é proibido assistir a “M – O Vampiro de Dusseldorf”, de Fritz Lang, “Lolita”, de Stanley Kubrick, ou “Morte em Veneza”, de Luchino Visconti? Essa é fácil: pouca gente, em sã consciência, iria contra essas reconhecidas obras-primas do cinema, dirigidas por gênios da sétima arte, mesmo sabendo que elas contém cenas com algum grau de pedofilia.

Então vamos para uma mais difícil: você gostaria de viver em um país onde não há permissão para ver “A Lagoa Azul”, um entrenimento barato que explora a nudez de Brooke Shields aos 15 anos? Ou “Assassinos por Natureza”, um dos pontos baixos da carreira de Oliver Stone, em que as cenas de violência sexual são acompanhadas pelas risadas artificiais típicas da sitcom? Bom, você pode argumentar que esses filmes não são fundamentais, mas são relativamente inofensivos, perto do que a gente tem visto por aí.

Então vamos complicar as coisas: você gostaria de viver em um país onde um país há censura a uma obra polêmica como “A Serbian Film”, com cenas explícitas de violência sexual e insinuações bastante diretas de pedofilia, sem grandes valores “artísticos” identificados pelas poucas pessoas que o viram até agora (entre as quais eu não me incluo)?

Minha resposta para as três perguntas seria a mesma: eu não gostaria de viver em um país que proíbe nenhum dos filmes acima, seja “Lolita”, “Lagoa Azul” ou “A Serbian Film”. Porque não se trata de uma questão de mérito artístico ou de grau de violência – dois conceitos bastante subjetivos, por sinal. E sim do fato de que há, desde o final da censura no Brasil, um sistema de classificação indicativa para o cinema segundo o qual pessoas adultas podem escolher o que querem pagar para ver. Esse sistema, que preserva a liberdade de expressão e a liberdade individual, tem funcionado bem, até onde eu sei.

Bom, eu vivo num país em que um desses filmes continua censurado. E, se ainda não percebeu, você também.

P.S.:  este post foi inspirado pelo brilhante texto “Pasmem!!! 30 Filmes que incitam a pedofilia”, do blog Los Olvidados.

 

Ricardo Calil é diretor de redação da revista “Trip”, crítico de cinema da “Folha de S. Paulo” e co-diretor, com Renato Terra, do documentário “Uma Noite em 67″. Escreveu sobre filmes e outros assuntos para o site NoMínimo, a revista “Bravo” e os jornais “Gazeta Mercantil” e “Jornal da Tarde”, entre outros.

Publicado no iG

http://colunistas.ig.com.br/ricardocalil/2011/08/15/a-censura-a-a-serbian-film-e-imoral/

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